<$BlogRSDUrl$>

09 outubro 2005

Cidades Eleitorais

Os dias próximos das eleições autárquicas inundam as cidades de de côr, som e ... ideias. Ideias para todos os gostos, debates através de multi canais, formas de comunicação variadas, inventivas expressões, imagens multiplas. A cidade renasce, nestas épocas, num esplendor próximo da sua filosofia fundadora: Polis, liberdade, democracia.

Sei que nem em todos os dias de todos os anos as cidades podem ser eleitorais, mas sei, que podem fazer perdurar mais, no tempo e no espaço, o modo de fazer política com todos, para todos, assumindo as discordâncias, sem receio de intervir, mas com a consciência do debate realizado.

05 outubro 2005

Recomeço ?

São difíceis os recomeços. Relembram. A memória deixa de ter uma agridoce melancolia para se tornar num turbilhão de acontecimentos. Voltar atrás? Sentir parte dessa felicidade do momento ido só batida pelo presente imperfeito e pelo futuro inconsciente.

Não sei, não tenho a certeza que seja boa ideia voltar a escrever aqui. Vou perguntar ao tempo e este, tenho a certeza, responder-me-á. Só não sei quando!

25 agosto 2003

Cidades em que a Água e a Terra se Encontram


As zonas de fronteira entre elementos naturais e construídos são particularmente sensíveis á intervenção humana. Pelas próprias características naturais do território, pela ocupação humana que com ela sempre se relacionou, pelas idiossincrasias que, culturalmente, se desenvolveram e historicamente se consolidaram.

Intervir na margem é um desafio técnico e cultural de elevada responsabilidade porque ambos, natureza e construção, são elementos instáveis em si mesmos e na sua relação biunívoca.

No espaço projectual, em que se inscrevem os projectos urbanos, a natureza tem de inverter o processo de elaboração ao impor uma abordagem de fora para dentro, isto é, não se apresenta condicionadora da ideia, ela própria terá de ser a essência da ideia.

«... esta primeira e estimulante experiência de trabalho, com a natureza e as preexistências, permitiu-me sentir a indivisibilidade entre ambiente e organização do espaço, não obstante a presença de fortes pressões que, geradas por interesses económicos, se empenhavam em intervenções desconexas, destruindo a continuidade do território.» Álvaro Siza Vieira, 2000.

Se todos os territórios são uma construção social, como seria interessante que todos ajudassem a pensar os que eles podem ser.
Percorrer a marginal de Matosinhos (Polis)
Debater o desenho da marginal da Figueira da Foz
Utilizar a piscina de Espinho
Viver o colorido da Costa Nova
Podem ser experiências sensoriais de grande significado, mas talvez, para maior interiorização dos lugares, depois da época alta.

nota: A todos aqueles que, em grupos interminaveis, invariávelmente, tem como destino anual exclusivo, o Algarve!

24 agosto 2003

Falta Dignidade ao Primeiro Ministro

Na TSF duas notas de Ferro Rodrigues. A Assembleia da República não vai, por vontade da maioria, organizar uma Comissão de Inquérito ao problema dos incêndios. A questão está bem levantada, é certo, mas mesmo assim perguntarei a Ferro Rodrigues se viu território mais "ardido" do que o modo de funcionar e decidir de uma comissão de inquérito ?

F. Rodrigues pergunta: Onde está o Ministro da Saúde ? eu pergunto: Onde estão os outros ?
Aguentou estoicamente o Ministro da Administração Interna que, malgrado alguns inexitos verbais, por lá andou, também ele a apagar fogos. No Minho não houve fogos, pelo menos com dimensão relevante, talvez por isso Durão Barroso falou deste tema em ... Viana do Castelo.

Já agora ... onde está o Ministro do Ordenamento do Território ? Talvez por sua influência, um dos ministros que mais surgiu nas televisões foi Paulo Portas. Porém foi estranho não se ter referido ás granadas de mão dos antigos comandos da Guiné de 73, da sua relação com os incêndios florestais e já agora, no surrealismo das suas imprevisiveis relações, com a viagem do Real Madrid á China.

Impressionante o número de pessoas afectadas pelo calor excessivo dos últimos dias. Pergunto-me a mim próprio se aconselhamento, em spots ou programas, a passarem com relativa frequência não teriam diminuído o número de vítimas. Onde estava o Ministro da Saúde ?

A táctica é tão simples quanto perversa. O primeiro ministro aparece nos momentos "bons", do tipo ir ao fogo quando ele á muito está apagado e falar dos programas de apoio financeiro a uma hipotética reconstrução territorial, social e económica dos sítios afectados. Aos ministros compete formar barreira para que o primeiro ministro não seja beliscado. Falta dignidade ao Primeiro Ministro ! Falta dignidade á Assembleia da República que não quer aprofundar o tema.

Lembro-me de Jorge Coelho e da sua demissão no caso da Ponte de Entre os Rios. Lembro-me de António Vitorino e da sua demissão por caso nenhum. Lembro-me das atitudes de grande dimensão humana. Não me quero lembrar de mais nada. Para continuar a confiar no mundo. Para continuar a pensar que a política pode ter uma dimensão nobre.


Amor È Tudo

De Thomas Vinterberg, com excelentes personagens, a fazer lembrar David Lynch. Não é o mesmo Vinterberg da escola do Dogma 95 como ele próprio o assume. Se por um lado sinto nostalgia (a mesma de Tarkovski) de filmes como “A Festa” por outro abrem-se novos campos de realização para este cineasta.

Diz Vinterberg: «Em 1995 um realizador meu amigo e eu fundamos um movimento chamado Dogma 95. Uma das ideias fundamentais por trás do movimento era estabelecer um conjunto de regras que nos impedisse de usar certas ferramentas da realização como a iluminação artificial, a maquilhagem e os efeitos especiais. Artisticamente era um processo muito estimulante.» Assume, porém que este filme não é um filme Dogma referindo «É a minha tentativa para evitar a repetição, para assumir um novo risco, explorar um novo território»

Sobre o “It´s all about love” diz: «É o mundo visto através dos meus olhos. É o resultado de como a vida nos emocionou num período de grande mudança. Através do meu olhar o meu mundo é a minha mulher e as minhas duas filhas de vestidos côr-de-rosa e patins. São notícias de jornal sobre pedaços de gelo que caem do céu. É o 11 de Setembro. São as cheias da Europa. São as pessoas que vivem nas ruas. Mas também os aeroportos, hospedeiras simpáticas, pessoas apaixonadas e pessoas ao telemóvel.»

Continua, «... na minha vida, há uma grande indústria do entretinimento, alguns bons amigos e uma família de que frequentemente tenho muitas saudades. De certo modo está tudo no filme. Mas há muito mais ... há uma canção que eu e Mogens Rukov escrevemos:
Ira Dei
Chaos Mundi
Homo Querem
Amorem
Depois é claro há uma história, um argumento, uma cadeia de acontecimentos. Mas isso é menos importante. Acho que a intriga só lá está para traduzir os nossos pensamentos.
... acho que escrever sobre o futuro ajudou-nos a descrever hoje o nosso fascínio, mas também a nossa preocupação, sobre a vida moderna.. Acho que o filme é um conto de fadas da vida
»

20 agosto 2003

Cidades Intermitentes

Volta a energia eléctrica a Nova Iorque, neste estranho mundo de olhar as cidades a partir da “cidade mãe de todas as cidades” ou “a cidade de todas as cidades”. Pressupõe-se que esta esteja também a chegar, se já não aconteceu, em todas as outras que, na Costa Leste dos Estados Unidos ou no Canadá, igualmente sofreram o mesmo problema.

Estranhamente, o receio do ritual do dia seguinte, que pressupõe mudanças, transformações, sentimento acrescido por algo que nos interrompeu mesmo a nós próprios, foi trocado pelo ritual do dia anterior, o da continuidade, repetição, lugares comuns. Esta não era a atitude esperada mas era a que, inconscientemente, nos reencontrava, de algum modo, com nós próprios, no território da estabilidade.

Deste modo, segredo colectivo interiorizado por todos, deslocaram-se, muitos da mesma forma como houveram saído no dia anterior, para os seus lugares habituais, curiosamente, sabendo que a cidade não poderia, de forma alguma, estar operacional para os receber.

Claro que o Metro, imprescindível numa cidade de 19 milhões de habitantes, não haveria de estar em condições, o sistema de organização de tráfego estaria em compatibilização de modos, falhariam as trocas e os negócios, seria necessário reorganizar a cidade e para isso seria necessário permitir a fluidez dos serviços municipais. Mas foram. Muitos foram.

A situação não foi grave, a noite foi da incerteza á euforia, da tristeza á festa. Nada aconteceu, ou pouco, do que se temia, como em 1977, que, vivendo uma situação similar, Nova Iorque foi pilhada. Houve festa nas rua, na intermitência de luzes de automóveis que circulavam e que mais do que nunca se apropriaram daquela bela palavra, quase tão bela como “ponte”, e tão comummente utilizada, “faróis”.

Não é que a cidade tivesse desaparecido, mas tinha-se transformado noutra coisa sem nome. Nova Iorque, mãe das cidades, estava ausente de si própria. Por momentos aceitou aquela festa que afugentasse os maus espíritos de Setembro. Reagiu como que pensando que não merece o estigma que esse mês de 2001 lhe colou á pele.

Nada disto obstou a que, sobre a cidade, tivessem de existir sete inusuais dias para retomar a sua funcionalidade.

Mesmo assim foram, como o regresso dos refugiados em Êxodos de Sebastião Salgado. Se calhar no mundo só existe uma pessoa, “nós todos” e, muito provavelmente, nenhuma cidade existe. Nenhuma.

Sérgio Vieira de Melo

Não sei! Se calhar recuso-me a saber o que quer que seja. Chamo de novo Reverte, 20 anos de reporter de guerra até se tornar novelista, e a estupidez humana.
Um transporte público com crianças, muitas crianças e adultos. Explodiu! Assim. Explodiu!

18 agosto 2003

Morreram 740 Pessoas

Balanço dos acidentes de automóvel em Portugal, desde o principio do ano de 2003, 740 mortos. Sete Zero Quatro vezes um individuo, uma pessoa. Em 7 meses e meio. 64000 acidentes de automóvel. Sessenta e quatro mil. 740 mortos. Diz que é balanço provisório ao qual será necessário acrescentar alguns feridos graves que irão morrer brevemente.

O que se passa ? O que é isto ? 740 !

15 agosto 2003

Cidades Interrompidas

A massa humana que nas cidades norte americanas da Costa Este e provavelmente de parte do Canadá que se estão a deslocar a pé é impressionante. Versão soft mas com os mesmos objectivos, Caminhar para zona segura, neste caso as suas próprias casas, eventualmente ..., que as longas filas de milhares de refugiados visiveis nas fotografias de Sebastião Salgado. O paradoxo é que, neste caso, a cidade que das multiplas liberdades é a mesma que, de repente, traiçoeiramente para quem nela tanto confia, as retira de forma dramática.

Provavelmente, espero que assim seja, não haverá qualquer problema, felizmente era dia. Não sei o que se passou quando caiu a noite. Como os nossos orgãos também os da cidade possuem mecanismos de aviso prévio. As cidades do ranking global estão saturadas. Não direi que atingiram o limite da sua capacidade de carga pois a engenharia descobre novas formas de transporte, de edificios, de estradas, pontes, viadutos, por cima ou por baixo de qualquer coisa, direi apenas que seria muito interessante um debate á escala mundial sobre a vida das cidades globais. Como as cidades não existem o que existe são as pessoas, trata-se então de falar da forma como nos organizamos.

Não sei tão pouco se as cidades ou parte delas deveriam ter mecanismos de segurança e estar pensadas para, como nos estádios, para, em caso de catástrofe, os seus utentes poderem ser evacuados em minutos até porque isso daria a sensação de viver em Estado de Sitio permanente. E cidades são liberdades. Máxima informação, possibilidades infinitas de contactos, mixegenação cultural, formas multiplas de profissões. Mas ...

Ontem ,nestas metropoles, conurbações, megalopolis, cada um dos seus habitantes, teve de, ele próprio, ser a sua cidade. Organizar-se em contexto de multidão. Que ninguém, nem uma criança começa-se a correr, inebriada pela sua própria ingenuidade, porque se alguem o fizesse, o que aconteceria a todos que, sem saberem porque, correriam na mesma direcção. Se alguem lançasse um boato que pudesse, multiplicado por milhões de ouvidos, inflectir a direcção dos da frente que, em choque, esbarrariam nos de trás, num gigantesco Crash humano.

Como explicar tudo isto se uma cegonha conseguiu deitar a luz a baixo em várias povoações do sul de Portugal ou se o excesso de "ares condicionados" conseguir quebrar a energia em cidades destas. Como explicar que a cidade está tão perto e tão longe da ideia que dela temos como espaço de apropriação diária.

Neste mundo do espectáculo telefonam-me a dizer « mas que excelentes power points » estas imagens darão. Assim foi também com o Ground Zero, o quarteirão mais célebre do mundo ... e mais vazio. Spike Lee utiliza-o de uma forma tão impressionante que constitui um massacre para o espectador. Simplesmente deixou-o ali á mercê das nossas memórias mais carregadas.

Ontem as pontes estavam todas ocupadas, em baixo carros em andamento lento, pessoas em andamento rápido. A densidade total nas chamadas obras de arte. Perguntei alarmado, mas a ponte aguenta a carga. A engenharia rápidamente me exlicou que as pontes estãoo sempre previstas para um pouco mais do que a sua capacidade total de carga por isso, em principio,­ não haveria problema. Elevadores e Metro seriam o maior problema pois aí deveriam estar milhares de pessoas. No metro subterraneo as temperaturas sobem, muito alto. 40.000 policias e bombeiros a tentar organizar o sistema. Eles que também são gente.

A mobilidade total em situação de crise, como se processa... Curiosa a imagem das filas de autocarros desorganizada, imagem do momento incerto. E muita, muita gente a pé, a caminhar deixando lastros de questões por trás de si. Como fica o que fica para trás. Quem fica para trás. Cidade deserta, cidade permissiva ao que de bom e mau passe pela cabeça de alguns.

Anuncia o rodapé da CNN que a energia está em sentido inverso ao da deslocação. Está a chegar. Como recuperar tudo, voltar a funcionar, fica para a Cidade Renascida.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?